Ícaro (Thales Miranda), Luzia (Giovanna Antonell ), Beto (Emílio Dantas) e Manuela (Rafaela Brasil): acertos de “Segundo Sol” (Imagem: Divulgação / Globo)
Foi quase impossível não saltar da poltrona e chacoalhar o esqueleto tão logo soaram os primeiros acordes de ‘O Canto da Cidade’ – canção que catapultou a carreira de Daniela Mercury –, indicando a estreia de “Segundo Sol”, nova novela das 21h. O clipe com imagens do carnaval em Salvador, onde se desenrola boa parte da narrativa, sacudiu a audiência adormecida no sofá, após as firulas da entrevista com o técnico da Seleção Brasileira, Tite, na novíssima bancada giratória do “Jornal Nacional”, grande atrativo do bate-papo. O que se viu na sequência foi uma narrativa tão “pulsante” e frenética quanto à música de Daniela e o compilado de imagens de arquivo. Uma estreia quase irretocável.
O autor João Emanuel Carneiro levou seu enredo para Salvador, estado onde a Globo acumula sucessivas derrotas para a Record, captado pelas lentes das câmeras coordenadas pelos competentíssimos Maria de Médicis e Dennis Carvalho. A aposta se revelou certeira: “Segundo Sol” tem o colorido que faltou à antecessora, “O Outro Lado do Paraíso”, onde até o iluminado Jalapão, no Tocantins, chegou a parecer escuro – e que, desabando em audiência na primeira fase, iluminou cenários e jogou a narrativa no breu. JEC entendeu o recado que o público lhe deu após a também apagada “A Regra do Jogo” (2015): a trama de agora é mais “palatável”, ideal para o brasileiro pisoteado pelas mazelas que assolam os telejornais. O autor envereda pelo mesmo escapismo propiciado pelo cartaz anterior da faixa, o do folhetim tradicional.
Carneiro, contudo, voa mais alto que o colega Walcyr Carrasco, responsável por ‘O Outro Lado’. O texto não é “tatibitate”, “mastigado”. Há falas dilacerantes, dessas que fazem a audiência vibrar – como o “você é fracassado!”, de Karola (Deborah Secco) para o namorado Beto Falcão (Emilio Dantas), com a carreira em declínio – e ruídos nas entrelinhas – caso do “quem já fez faz de novo”, de Laureta (Adriana Esteves, já marcando presença) sugerindo o regresso da mesma Karola à prostituição. Antes do primeiro bloco chegar ao fim, a namoradinha do ex-divo da música baiana se articulou com Remy (Vladimir Brichta), seu amante, irmão e empresário de Falcão, para faturar em cima da “morte” de Beto – que os dois encontraram vivo instantes depois.

Embora pareça difícil acreditar que, da atendente do balcão do aeroporto ao trocador de ônibus, ninguém tenha reconhecido Beto em seu trajeto de volta para casa, a “falsa morte” se torna crível graças à comoção que a partida de famosos, dos mais ao menos conhecidos, causa. Vide os Mamonas Assassinas, no mesmo 1996 em que o fictício cantor alcançou o sucesso, ou Cristiano Araújo, em 2015. Quem viu Beto Falcão com vida, após a decolagem do avião que explodiu, “o vitimando”, pode ter, inclusive, remetido a Elvis Presley, desde sempre envolvido em boatos sobre seu falecimento. Fato é que o protagonista de “Segundo Sol” topou a proposta indecorosa de Karola e Remy, intentando salvar sua família da miséria. E refugiou-se na ilha de Boiporã, onde conheceu Luzia (Giovanna Antonelli), a marisqueira que o conquistou.
Em três semanas, Beto se descobriu apaixonado. E Luzia, já mãe de dois (os fofos Thales Miranda e Rafaela Brasil), se viu à espera do terceiro filho. Estando em contato com tudo o que sempre sonhou – um amor e uma cabana –, Falcão decide extinguir a farsa e se unir à mulher que ama. Sinal de que Karola, Remy e Laureta, que entra neste circuito no segundo capítulo, terão que rebolar para continuar faturando em cima do rei morto. Neste quinteto protagonista, todos se destacaram. Especialmente Emílio Dantas, que em nada remeteu a Rubinho, tipo marcante que vivera em “A Força do Querer” (2017). Seu Beto tem muito de atabalhoado, do despreparo de quem chega ao topo, metendo os pés pelas mãos – e dando ouvido a quem não deve – para se manter lá. Antonelli, que pareceu pouco à vontade nas primeiras cenas, se encontrou quando soltou a voz.
O primeiro capítulo de “Segundo Sol” foi, como deve ser todo bom primeiro capítulo, prenúncio de uma boa novela. O que se espera para os próximos meses é que a excelência da direção seja mantida, dando suporte ao elenco bem escalado – polêmica com a representativa negra em baixa à parte – e acompanhando o roteiro inteligente do autor. Após meses de um folhetim irregular, o público merece uma obra precisa, em todos os sentidos. “Segundo Sol”, ao que parece, é esta obra.
Em tempo 1: Brilhante a recriação de clássicos da axé music, especialmente ‘Baianidade Nagô’, de Maria Gadú, e ‘Me Abraça’, com o duo Anavitória. O repertório desponta como sério candidato – guardadas as devidas proporções – a repetir o fenômeno ‘O Rei do Gado Vol. 1’, cujas canções, de tão entranhadas no enredo, garantiram a maior vendagem de cópias de uma trilha de novela. Espero também que a direção mantenha a identidade das vinhetas de intervalo. O “oh-oh-oh” de ‘Swing of the colors’, da dupla de DJs iKoko remete ao bem-sucedido “oi-oi-oi” de “Avenida Brasil” (2012). Tiro certo.
Em tempo 2: Sobre o rapaz que dorme no barco enquanto Beto Falcão pesca com o enteado. Ninguém pensou se tratar, apenas, de um barqueiro? Foi o que me pareceu.
Fonte: Rd1